BIG BANG
"Muleque bão arrimo de família assassinado igual um cão" Racionais Mcs
A imprensa da Bahia e a imprensa nacional deram ampla cobertura à "Operação Big Bang" comandada pelo Ministério Público e pela Secretaria de Segurança Pública. Deixaram de fora a secretária de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Dra. Marilia Muricy , aquela do episódio do Procon.
Supostamente desarticularam uma facção criminosa existente no interior da Penitenciária Lemos Brito. O debate com Dra. Marilia é esse: " se ela sabia ou não". Ela mostrou-se magoada com o que qualificou de "problema diplomático", mas continua firme no cargo.
Do lado de fora da corte , na vida real dos pretos e pretas, os grupos de extermínio, de oficiais e pára-oficias continuam operando. Ceifando vidas , impondo o terror, o medo e a morte às comunidades negras em Salvador e Região Metropolitana.
Muitas mortes em três chacinas nos bairros de Mussurunga, Uruguai e Pau da Lima. Isso não gera reportagem especial, não vira debate nacional, não movimenta esforços de especialistas que tagarelam demasiado nos programas de TV durante a "Operação Big Bang". Aliás, o som sinistro ouvido por um moleque de 25 anos em Pau da Lima(?)
Ontem, enterramos mais um, coberto de flores, num caixão de madeira. Foi sepultado por seus pais no Cemitério Quintas dos Lázaros. Da vila é um radialista comunitário, respeitado pelo pessoal do Samba e militante de causas populares. Levou o corpo de seu filho à tumba em silêncio, sem chorar, fumando pacas. Como eu.
A mãe do cadáver precoce despencou nos braços dos parentes. Em desespero, ela apenas oferecia lágrimas para acalmar a alma do filho que foi devidamente encomendada por uma senhora que orava serena pedindo perdão a Deus para os assassinos " que não sabem o que fazem". Fé é necessário nessas horas.
Mais uma vez a imprensa,(des)informada pelas agências de segurança do sistema penal anota em seus editorias tragédias atribuídas à guerra do tráfico. Os traficantes mesmo não se pega. Tão tomando Wisk numa cobertura, acariciando os cachos louros do filho.
Não analisam as características das execuções e vão etiquetando as comunidades.
Vamo lá: Homens mascarados, portando armas de grosso calibre e coletes a prova de bala. Os caras vão de fuzil detonam tudo na quebrada.Se fosse ladrão, gastava bala no carro forte. A cena é essa. A inteligência policial na Bahia é seletiva,só apura e prende gente preta deserdada. E ali mesmo executa. Impunidade é isso mas estamos preocupados com geladeira em cela.
Os grupos de extermínio que atuam desde o regime militar continuam operando, passaram protegidos pela política criminosa do carlismo e vão agora quase que despercebidos atuando nas comunidades segregadas, sem que o governo democrático e popular faça algo para impedir a carnificina.
A Operação Big bang foi recebida como uma resposta do Governo à sociedade, mas que sociedade? A classe média? Os grupos conservadores e patrimonialistas, os acadêmicos contemplativos, os políticos em campanha que preferem o silêncio sobre nosso tumulo coletivo?
Diante de nossos apelos nenhuma resposta foi dada sobre a morte de Blul, Edvandro, Aurina, Diego, Ricardo, Djair e os mais de 1500 mortos na guerra racial baiana em 2008. O clima é de insegurança e promete piorar as instituições públicas. Escolheram preservar o patrimônio e a propriedade em detrimento da vida.
A nós, só resta o esforço militante de tomar as ruas: Pela vida, articulando as famílias das vitimas, as comunidades ameaçadas e as organizações que se importam. Queremos é ser ouvidos no "bagulho". Não adianta seminários e encontros sem perspectivas e autoridade de fazer mudanças...não adianta discursos evasivos que não mudam nada.
Pela vida , contra o racismo , pela verdadeira mudança !!!
Hamilton Borges Walê Poeta, militante Negro
Coveiro amador