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11/06/2009O Consumidor exemplar

Vivemos o tempo das sociedades. Sociedade da informação. Sociedade global. Sociedade da diferença. Sociedade da individuação. Sociedade da miséria. Sociedade do consumo etc. Não podemos mais prescindir de certos atos da condição humana que emergem como religiões da modernidade. Consumir hoje é algo como respirar e comer. Naturalizou-se uma ação societária humana como fruto de sua própria natureza. Hoje, competem-se consumidores como se fossem guerras entre nações. Uma determinada técnica de venda e marketing busca o consumidor exemplar, que, como diz Galeano é aquele que desperdiça e descarta. A necessidade e a satisfação do consumidor são confundidas com a necessidade e a satisfação do mercado e dele se extrai e se impõe novas necessidades e satisfações. Enfim, nossos desejos de consumo são decididos antes da oferta dos produtos no mercado. Obter algo é a tensão do mundo moderno. Simular ter algo também. E é preciso ser rápido porque amanhã já se tem um novo produto substituindo o de hoje. Por isso a agonia da violência encontra anteparo nas armadilhas do desejo consumista. Por isso o negro pobre da periferia quer também o tênis novo e caro do branco rico. Aqui vale indagar se se é possível consumir de modo humanamente justo. Atribuindo valores de solidaridede, saciedade, proporcionalidade e proteção ao meio ambiente num mercado cada vez mais agressivo nas relações de consumo.

Nosso mestre Milton Santos nos fala que o Consumismo é o narcisismo da dos modernidade, produz inação e diminui a capacidade moral e intelectual do individuo. O desafio então seria o de pensar uma sociedade que não consumisse tanto. Algo como inverter as premissas dos três "erres" da luta ecológica, em vez de reciclar, reaproveitar e reduzir o que se consome, deveríamos, antes e primeiramente, reduzir, depois, reaproveitar e por último reciclar. Lutar contra o consumismo seria a bandeira mais poderosa para contribuir com a transformação de um mundo desigual e injusto. Consumir menos certos produtos e serviços como forma também de obter outros tantos produtos e serviços que não se consegue pela tirania do dinheiro e da informação que não chega a todos. Porque não planejamos o dinheiro que obtemos e nem temos possibilidade de negociar as dividas contraídas no universo de um mercado que vende cada vez mais dinheiro em padarias e açougues.

A luta consumerista enfrenta o desafio do efêmero de um consumismo exemplar patrocinada por grandes corporações que não vê o humano em nós. Porque não podemos defender direitos de um consumo que mata a cidadania e o meio ambiente. Porque o consumismo localiza pessoas e as destina em suas estratificações ao mesmo tempo em que produz violência e medo.

Sérgio São Bernardo advogado, mestre em Direito Público (UNB) e presidente do Instituto Pedra de Raio.

 
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