26/06/2009IDENTIDADE
[1]Por Hércules Azevedo da Silva
Os elementos nitidamente humanistas do discurso político adotado pelas esquerdas desde a gloriosa Revolução de 1789 foram de forma paulatina e pragmática abandonados, e em seu lugar, à esquerda passou a defender o pragmatismo político. Desse modo, visava através do estabelecimento de alianças com setores inclusive antagônicos ao seu projeto de poder conquistar o Estado. O importante era vencer o processo eleitoral, para poder administrar a Máquina de Governo.
Assim, a via revolucionária já não fazia mais parte da visão de mundo da maioria das organizações de esquerda e, a luta revolucionária acabou sendo descartada. No Brasil, está tendência ganhou corpo a ponto de contribuir, para a conquista da Máquina Governamental, pelo Partido dos Trabalhadores e seus aliados que através do expediente da crítica: a ineficiência da burocracia estatal, e a ineficácia da ação de Estado quanto ao atendimento das demandas da sociedade, em áreas como a da: Saúde, Educação, Segurança e Oportunidades de Trabalho e Renda conseguiam vencer as eleições.
Através da postura crítica a ineficiência da burocracia estatal e a ineficácia da ação de Estado quanto ao atendimento das demandas da sociedade nos credenciamos a substituir os conservadores no sistema de representação da sociedade civil brasileira. Assim, após vencer o processo eleitoral nos defrontamos com o desafio de transformar o nosso ideário político em diretrizes governamentais capazes de superar os complexos problemas, que colocaram o Estado Brasileiro no Ranking dos mais perversos e desiguais no que diz respeito às questões sociais diante da comunidade internacional.
Já no governo uma mudança de discurso foi logo percebida, pois as lideranças partidárias dos partidos de esquerda mudam de atitude abandonando o perfil de crítica, para se ocupar em formular a defesa das ações de governo. Daí surge à obrigação de construir e assumir a chamada: “atitude de governo” - o defendido e propagado pragmatismo político. Cena que modificou totalmente a postura ideológica da esquerda, outrora, centrada e preocupada em defender os interesses da maioria excluída da sociedade.
O que nos surpreende é que agindo em nome da governabilidade a esquerda acabou caminhando em sentido contrário, ao projeto político, que defendia antes de chegar ao Aparelho de Estado. Desse modo o corpo dirigente dos partidos de esquerda tem demonstrando que do ponto de vista funcional são eficazes em reproduzir a lógica excludente de nosso sistema de representação. Pois em nome da necessidade de ocupar a burocracia estatal passamos a agir segundo o fazer político tradicional centrando a nossa ação na ocupação das estruturas administrativas, jurídicas e burocráticas que se transformaram em oportunidade para empregar aqueles identificados como “parceiros/eleitores”. Acabamos assim, encaminhando e reproduzindo o mais puro, simples e deplorável “modus faciendi” baseado no fisiologismo.
Em nossa tradição política, o fenômeno descrito anteriormente foi muitas vezes imputado, ao modo como as estruturas de poder foram pensadas e gestadas desde os seus primórdios. O que pode ser observado através da analise histórica, pois no passado (Brasil Império) quando existiam dois grupos influentes e predominantes na política nacional (os liberais e os conservadores), e comparamos o seu modo de fazer com o das elites políticas em nossos dias constamos que existem profundas semelhanças no campo do fazer entre as corporações políticas dos distintos períodos. Já que os políticos de hoje continuam reproduzindo, a lógica que permitiu aos historiadores afirmarem que: “não há nada mais parecido com um conservador do que um liberal no poder”.
Tal constatação histórica a respeito da mentalidade dos agentes políticos em nosso país nos remete as seguintes questões: O que é possível fazer para corrigir os rumos até aqui perseguidos pela esquerda no governo? Será que ela só pode ocupar o espaço de poder através da realização de alianças que limitam seu fazer, sua lógica ideológica? E estas alianças são realmente as únicas responsáveis pelo abandono de nossa identidade quando chegamos ao governo? Estas são questões que devem estar incomodando muita gente e que certamente devem ser debatidas e respondidas antes de pleitearmos participar de qualquer processo eleitoral.
[1] Professor da Rede Pública, com Pós-Graduação em Prática e Planejamento do Ensino do Terceiro Grau pelas Faculdades Olga Meting e em Psicologia Transpessoal pela Faculdade Baiana de Medicina e Instituto Holon, atualmente, é Conselheiro do Conselho de Gestão das Organizações Sociais - Congeos.